
As mudanças climáticas custam 70 mil milhões.
Aqueles que emitem menos gases que provocam o efeito de estufa são os que mais sofrem com as mudanças climáticas. Mas os responsáveis pelos maiores estragos recusam-se a pagar a conta.Os glaciares do Peru estão a derreter. Nas altitudes dos Andes, estranhas tempestades de granizo e períodos de frio intenso estão a gelar os lamas até à morte. No Norte do Quénia, secas sem precedente levaram os pastores a batalhas mortais por uns escassos furos de água. Nas montanhas do Tajiquistão, perto da fronteira com o Afeganistão, cheias e deslizamentos de terras destroem as colheitas.
Por todo o mundo civilizado, as mudanças climáticas provocadas pelo homem são uma realidade indiscutível e estão já a atingir violentamente os países mais pobres.
Historicamente, o aquecimento da atmosfera tem sido o resultado de emissões de CO2 (dióxido de carbono) por parte dos países industrializados, mas os cientistas estão de acordo em afirmar que o aquecimento global já é uma realidade, os países que menos poluíram são os que já estão a ser mais atingidos.
Além dos passos imediatos para reduzir as emissões, são necessários 70 mil milhões de euros anualmente para ajudar os países em desenvolvimento a enfrentarem os enormes custos da adaptação a uma mudança climática para a qual pouco contribuíram, segundo um relatório da Oxfam. "Os países em desenvolvimento não podem e não devem pagar a conta das emissões dos países ricos", disse Kate Raworth, cientista sénior da Oxfam e autora de renome.
A última oportunidade para o mundo desenvolvido tomar medidas em relação às emissões de gases com efeito de estufa que estão a provocar as mudanças de clima começou na Alemanha, numa reunião do G8, grupo dos países mais ricos, que que decorreu entre 6 e 8 de Junho em Heiligendamm, na costa alemã do Báltico.
A Alemanha, apoiada pela Grã-Bretanha e pelo Japão, lutou por um compromisso por parte de todos os membros para que as respectivas emissões de CO2 sejam reduzidas a metade até meados do século e um compromisso para conseguir limitar o aquecimento global a 2oC.
Mas estes esforços parecem bater contra uma parede com o formato da firme oposição dos EUA. Um esboço de comunicado de antecipação à cimeira do G8 sugeria que os Estados Unidos da América estão decididos a rejeitar qualquer progresso real na mudança climática.
"Os EUA têm ainda reticências sérias e fundamentais acerca deste esboço de declaração", diz a nota. "O tratamento das mudanças climáticas está contra a nossa posição no geral e ultrapassa múltiplas 'linhas vermelhas' no respeitante a coisas com que nós, simplesmente, não podemos concordar."
Novo acordo
Os EUA, com menos de 5% da população mundial, são responsáveis por perto de um quarto das emissões globais. São seguidos pela China e depois pela Indonésia e pelo Brasil - cujas emissões são causadas pela desflorestação -, e depois pela Rússia e pela Índia. Os EUA recusaram-se a ratificar o acordo internacional sobre as reduções, o Protocolo de Quioto, dizendo que não podiam pôr em perigo a sua própria economia.
Esse acordo, que está a pedir cortes mais modestos, expira em 2012 e a chanceler alemã, Angela Merkel, tem estado determinada a usar o G8 como um primeiro passo para uma negociação de um novo acordo "filho de Quioto" na cimeira das Nações Unidas sobre o clima, em Bali, no corrente ano.
Tony Blair, que sairá do Governo no próximo mês, tem estado desesperado para obter uma cedência sobre as mudanças climáticas por parte da Casa Branca para selar o seu legado, mas, até agora, apenas obteve concessões retóricas por parte do seu mais próximo aliado. A América tem tido tendência a referir a ausência da China e da Índia do Protocolo de Quioto como razão para ficar de fora dos acordos internacionais, enquanto Nova Deli e Pequim apontam a responsabilidade histórica do Ocidente nas emissões como razão para rejeitar os cortes.
Japão muda de lado
Uma mudança de atitude drástica do Japão, o qual se uniu aos países da União Europeia no pedido de uma redução de 50% nas emissões até 2050, parece ter insuflado uma nova vida às negociações, mas os diplomatas têm vindo desde aí a baixar as expectativas.
Enquanto os primeiros dois pontos dos cinco do comunicado da cimeira - a necessidade de um compromisso para limitar o aumento da temperatura média e o estabelecimento de um esquema global para o negócio do carbono - são os mais problemáticos, pode haver espaço para que haja progresso em relação aos restantes pontos. Estes incluem o combate à desflorestação, o desenvolvimento de novas tecnologias verdes e fundos de adaptação para países em desenvolvimento.
A Oxfam disse que a estimativa de 70 mil milhões de euros anuais para suprir os custos da luta contra as mudanças climáticas nos países mais pobres é baixa. Até agora, os países do G8 destinaram um total de 268 milhões para ajudar a adaptação dos países em desenvolvimento, uma quantia menor do que a destinada à melhoria dos sistemas de refrigeração do Metropolitano de Londres.
O relatório Adaptação às Mudanças Climáticas classifica os países com base nas suas responsabilidades pelas emissões de carbono entre 1992 e 2003 e na sua capacidade para pagar, baseada na respectiva posição no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU (Organização das Nações Unidas): os EUA seriam responsáveis por suprir perto de 44% dos custos de adaptação dos países em desenvolvimento; o Japão cerca de 13%; a Alemanha, mais de 7% e os Reino Unido mais de 5%.
"A justiça exige que os países ricos paguem pelo mal que já foi causado àqueles que são os menos responsáveis pelo problema", disse Raworth. "Isto não tem a ver com ajuda; tem a ver com os maiores e mais ricos poluidores do mundo cobrirem os custos infligidos aos mais vulneráveis, uma responsabilidade acrescentada totalmente diferente.DANIEL HOWDEN*
*Exclusivo DN/The Independent