28 abril 2008

O que não me incomoda


Como diz a Madalena, não responder é falta de educação, especialmente quando essa pessoa nos merece o maior respeito.Estou na onda, era mais fácil dizer o que me incomoda, mas vamos então ao assunto. Não me incomoda ser incómoda se daí vem algo que acho justo, não me incomoda dar o braço a torcer e portanto reconhecer quando não tenho razão, não me incomoda errar (já passei a idade), não me incomoda falar em público (parece pouco razoável, mas para quem se cobria de suor para dizer uma palavra que achava sempre insignificante, foi um passo de gigante), não me icomoda andar sempre de calças, apesar de ser gorda (são práticas para andar no Tarrafal, não me incomoda cruzar os braços e não fazer nada. Tão só isto.
O que me incomoda...fica para outra corrente.

Emoções e Sentimentos


Sempre pensei que havia diferença, mas nunca consegui explicar onde estava. Continuo a ter alguma dificuldade, mas o que sinto devem ser sentimentos e o que exprimo serão certamente emoções. Mas as emoções não se sentem? Acho que sim. Então estou sem definição novamente.
Talvez um exemplo seja elucidativo e retire a dúvida, não a mim, que irei tê-la eternamente, mas a algum interessado(a)que se dedique ao assunto de alma e coração. Se for de alma e coração é com emoção certamente; e sentimento para poder exprimir por palavras a emoção? Acho que me estou a baralhar ou a baralhar quem eventualmente venha a ler este arrazoado de palavras "à solta". Ora, vamos por partes. Se eu quero e anseio firmemente, com todo o meu querer alguma coisa, uso o sentimento de posse,ou de bem estar, ou de bondade ou de inveja ou qualquer outro. Mas, será que cada sentimento pode ser expresso? E não será essa expressão a emoção? Assim,parece-me que emoção e sentimento não podem dissociar-se. Contudo, leio alguns artigos onde a separação é nítida e clara. Eu não consigo. Apenas acho que o sentimento é meu e poderei ou não exprimi-lo, mas quando o exprimo, posso fazê-lo com emoção natural ou encenada. A emoção encenada deixa de exprimir o verdadeiro sentimento, esse é só meu. A emoção será assim a expressão sincera de um sentimento.Mas, há sentimentos que se guardam, não se exprimem. Será que não são sentimentos? Será que todas as emoções são expressões de sentimentos?

23 abril 2008

DIA DA TERRA


1 - Estabelecer princípios ambientalistas

É necessário estabelecer compromissos, padrões ambientais que incluam metas possíveis de serem alcançadas.

2 - Fazer uma investigação de recursos e processos

Cada um de nós deve verificar os recursos que utiliza e o resíduo que os mesmos geram. É importante que se confira se há desperdício de matéria-prima e até mesmo de esforço humano. O objectivo é encontrar meios para reduzir a utilização de determinados recursos e o desperdício.

3 - Estabelecer uma política ecológica de compras

Até numa simples ida ao supermercado é necessário pensar no ambiente. Existem certos produtos que não são biodegradáveis e, por isso, devem ser dispensados. A preferência na escolha deve recair em produtos que sejam mais duráveis, de melhor qualidade, recicláveis ou que possam ser reutilizáveis. Devem evitar-se os produtos descartáveis não reciclados como canetas, utensílios para consumo de alimentos, copos de papel, etc.

4 - Incentivar os outros

Falar com o maior número de pessoas sobre a importância de agirem de forma ambientalmente correcta é muito importante na luta pela defesa ambiental. A mensagem passada por via directa é sempre muito mais eficiente...

5 – Evitar o desperdício

Fazer a selecção e reciclagem do lixo doméstico, fechar bem as torneiras, apagar luzes e desligar electrodomésticos quando não estiverem a ser utilizados, manter os filtros do sistema de ar condicionado e ventilação sempre limpos para evitar desperdício de energia eléctrica, usar os dois lados do papel ou tentar utilizar transportes não motorizados, como a bicicleta, são pequenos gestos que podem contribuir de uma forma abismal para a defesa do ambiente.

6 - Evitar poluir o meio ambiente

Para a conservação do meio ambiente, é muito importante que todos tomem consciência de que é preciso diminuir a utilização de produtos tóxicos. No caso das empresas, urge encontrar alternativas para a substituição de solventes, tintas e outros produtos tóxicos. Em casa, até os pequenos gestos como a separação de pilhas e tinteiros de impressora para posterior reciclagem podem ter um grande significado na defesa do ambiente. Os automóveis também são uma enorme fonte de poluição. Para reduzir o efeito poluente dos carros, é necessário regular o motor do veículo e manter a pressão dos pneus nos níveis recomendáveis.

7 - Evitar riscos

Para que se possam evitar riscos de ataques ambientais, é necessário que se esteja informado. Nos tempos que correm, a Ecologia está na ordem do dia e as informações sobre o que se deve ou não fazer estão ao alcance de todos.

8 - Registar os resultados

Uma boa forma de manter as metas ambientais sempre presentes é registar os seus objectivos ambientais e os resultados que conseguiu alcançar. Com este método, vai manter-se estimulado a continuar e vai conseguir avaliar as vantagens das medidas ambientais que adoptou.

9 – Comunicar

No caso de problemas que possam prejudicar os seus vizinhos ou outras pessoas, tome a iniciativa de informá-los para que possam minimizar prejuízos. O diálogo é sempre a melhor via de chegar a um consenso.

10 – Dedicar tempo ao trabalho voluntário

Se tiver tempo para actividades de trabalho voluntário, não hesite em associar-se às inúmeras actividades que se fazem em defesa do ambiente. A prática e a acção conferem ainda mais consciência ecológica.

O QUE PODEMOS FAZER

A sociedade de consumo em que vivemos por vezes prejudica as nossas ambições ecológicas. De qualquer forma, ainda há muita coisa que se pode fazer para provocar menos impacto ambiental e promover a nossa consciência ecológica.

1. Prefira sempre embalagens de vidro pois estas permitem infinitas reciclagens e não se decompõem na natureza. De todas as embalagens que as indústrias utilizam, as de vidro são consideradas das mais ecológicas, desde que não sejam desperdiçadas no lixo.

2. Procure produtos com a inscrição "Not tested on animals", pois são aqueles cujos testes não foram efectuados em animais. Tente saber quais são as empresas que não efectuam este tipo de testes e dê preferência às marcas que elas representam.

3.Dê preferência a pilhas recarregáveis. As pilhas, depois de usadas, libertam metais no ambiente, como o zinco, o mercúrio, o cádmio, etc., que produzem efeitos nocivos ao ecossistema e à saúde.

4. Prefira produtos biodegradáveis e recicláveis. Não utilize aerossóis com clorofluorcarbonetos (CFC), pois estes contribuem para a destruição da camada de ozono.

5. Troque regularmente o óleo do seu carro e utilize um filtro anti-poluente no escape.

6. Faça a separação de papéis, vidros, latas e plásticos, para posterior reciclagem. Desta forma, vai ajudar a diminuir o lixo acumulado e vai permitir a obtenção de matéria-prima sem prejudicar o meio ambiente.

7. Diminua os gastos de electricidade. Dessa forma fará baixar o nível de dióxido de carbono produzido pelas centrais eléctricas e contribuir para a despoluição do ar.

8. Tente adquirir electrodomésticos com o mínimo de CFCs possível. Esta é uma das formas de proteger a camada de ozono.

9. No supermercado, tente utilizar sacos biodegradáveis (por exemplo, de papel ou de pano) em vez dos usuais sacos de plástico que demoram uma eternidade a degradarem-se naturalmente.

21 abril 2008

Continuamos longe das metas estabelecidas quanto a emissões de GEE


As emissões de gases com efeito de estufa (GEE) emitidos por Portugal em 2006 «ultrapassaram em 13 por cento o limite fixado» pelo Protocolo de Quioto, avançou este domingo à Lusa um responsável da organização ambientalista Quercus.

«Apesar de Portugal ter reduzido as suas emissões entre 2005 e 2006, sobretudo devido a uma maior utilização de energias renováveis ao nível da produção de electricidade, os dados de 2006 demonstram que o país continua muito acima da meta estabelecida», explicou à Lusa o vice-presidente da Quercus, Francisco Ferreira.

O responsável lembrou que a meta estabelecida para Portugal pelo Protocolo de Quioto (para o período 2008-2012) é de um aumento de 27 por cento das emissões em relação a 1990, que é considerado o ano de referência.

A organização ambientalista analisou os dados relativos às emissões de gases com efeito de estufa (GEE) de Portugal no ano de 2006, disponibilizados na semana passada no portal da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas.

«Os dados de 2006 agora conhecidos apontam para 40 por cento de emissões de GEE acima de 1990 e para 13 por cento acima do limite fixado pelo Protocolo de Quioto», avançou o responsável.

Segundo Francisco Ferreira, se ao nível da produção de electricidade Portugal «está a conseguir investir mais em energias renováveis, na parte dos transportes não tem conseguido reduzir as emissões».

A Quercus destaca que o aumento do preço dos combustíveis «curiosamente» não teve impacto na totalidade das emissões do sector dos transportes, que se mantêm aproximadamente «iguais entre 2005 e 2006, 96 por cento acima do valor registado em 1990».

As emissões de GEE atingiram em 2006, segundo as contas da Quercus, cerca de «82,7 milhões de toneladas» - sem se considerar o uso do solo, alteração de uso do solo e floresta -, o que equivale «a uma emissão per capita de aproximadamente 8,27 toneladas por ano».

O responsável explicou que a situação de seca durante o ano de 2005 «tinha agravado as emissões de Portugal em 3,9 por cento entre 2004 e 2005, em relação ao ano de referência de 1990».

«Em 2006, a ocorrência de precipitação levou a uma forte redução das emissões no sector da produção de electricidade, uma vez que entre 2005 e 2006 se verificou um aumento de produção hídrica, que quase duplicou», explicou.

18 abril 2008

Solving the Energy Puzzle through Innovation




13 abril 2008

E SE A TERRA FOSSE UM IMENSO CONDOMÍNIO?


E se a Terra fosse um imenso condomínio?

Condóminos obrigados a reduzir e compensar impacte no ambiente
E se pensássemos a Terra como um imenso condomínio? A proposta é da Quercus, que quer transformar os portugueses em habitantes conscientes da responsabilidade de cuidar das áreas comuns do planeta. O "contrato" do Condomínio Terra, a Convenção de Gaia, será assinado em Outubro. Até lá, a Quercus está à procura de condóminos.O conceito surgiu na cabeça de Paulo Magalhães em 2002, quando o Prestige se afundou ao largo da costa da Galiza. "Aquela situação surrealista de os espanhóis mandarem o navio para as águas portuguesas, para lá de uma linha que não existe, uma linha que é uma abstracção jurídica, aparentemente sem se lembrarem que o petróleo ia para os dois lados, fez-me pensar que temos de construir um modelo jurídico que se adapte ao planeta que temos", conta Paulo Magalhães, jurista e ambientalista."Cheguei a casa e tinha uma conta de condomínio para pagar, uma conta enorme por causa de umas obras numa parte comum do prédio, mas das quais eu não ia beneficiar directamente." Então, o advogado resolveu estudar a figura de condomínio e percebeu que este é o único modelo jurídico que mantém a propriedade e a co-propriedade. "Também é uma abstracção, mas é uma que se adapta à realidade." Foi assim que nasceu o conceito "Condomínio da Terra". "Não podemos confundir espaço aéreo com atmosfera, não podemos confundir zona económica exclusiva com oceano", explica, defendendo a criação de um modelo que olhe para atmosfera, a hidrosfera e a biodiversidade como bens comuns.A ideia pode parecer utópica num mundo construído sobre a soberania dos Estados e a separação "do que é meu e do que é teu" mas, para o jurista, não se pode tentar resolver um problema - as alterações climáticas - com a mesma lógica que levou ao seu aparecimento. "A única alternativa dos homens é entenderem-se", conclui. E tal como num condomínio, em que os vizinhos não são todos amigos, mas têm interesse em manter as escadas limpas e o elevador a funcionar, reconhecer que há partes comuns.Apesar de ter reacções positivas à ideia - "como é que não me lembrei disso antes" é uma das mais comuns -, também há muito cepticismo e, mesmo os que a achavam gira, não entendiam como é que o conceito podia ser aplicado. A solução é "pensar global, agir local", explica Paulo Magalhães, e ser a sociedade civil a dar o exemplo aos Estados. Ou seja, enquanto não existe um administrador do grande condomínio Terra, a Quercus quer assumir a responsabilidade por pequenas fracções e incentivar cidadãos e empresas a fazerem o mesmo. Em Outubro, em Vila Nova de Gaia, será assinada a Convenção de Gaia, que pretende ser o texto fundador do Condomínio Terra. Os condóminos têm de comprometer-se a reduzir e compensar o seu impacto no planeta: compensar cuidando das partes comuns num local, ou através de um projecto, onde pelo menos um dos bens partilhados é afectado de forma positiva.


Patrícia de Jesus

Diário de Notícias

06 abril 2008

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS REQUEREM ALIMENTOS MAIS "ECOLÓGICOS"


Alterações climáticas requerem hábitos alimentares mais "ecológicos"
Dr.ª Vanessa Candeias
Data: 2008-04-06
Existe uma complexa matriz de interacção entre as condições climatéricas e a alimentação (produção agrícola, criação de gado, pescas, transporte de alimentos, produção alimentar industrial, etc.). A produção de alimentos influencia o clima e vice-versa, alterações no clima influenciam a produção, cadeia de distribuição e comércio dos alimentos, a quantidade e variedade de alimentos disponíveis para consumo, a segurança e a salubridade alimentar. O nível de produção agrícola que se verificou nos últimos 50-60 anos não tem qualquer precedente histórico. A produção alimentar adaptou-se às condições climatéricas características das diferentes regiões do mundo, e os produtores conseguiram manter níveis de produção alimentar elevados mesmo com pequenas variações climáticas. No entanto, prevê-se que alterações climáticas bruscas resultantes do aquecimento global vão criar desafios para os quais os ecossistemas agrícolas não estão preparados e, dificilmente, conseguirão reagir mantendo os níveis de produção alimentar actuais. Por isso, o elevado risco de redução na quantidade de alimentos disponíveis é uma das mais alarmantes consequências do aquecimento global.Globalmente, cerca de 850 milhões de pessoas passam fome. Destas, cerca de 820 milhões vivem em países em desenvolvimento que, segundo as previsões meteorológicas, serão os mais afectados pelas alterações climatéricas. Para além das variações climatéricas regionais e sazonais, prevê-se que o aquecimento global afecte a produção agrícola, especialmente em regiões tropicais e subtropicais deixando as populações que vivem nestas zonas mais vulneráveis a baixos rendimentos, fomes e insegurança alimentar. A problemática das secasAs altas temperaturas exacerbam os efeitos das secas, danificam as plantações, e destroem colheitas. As secas reduzem o crescimento vegetal e a produção animal e, por isso, têm adicionalmente um efeito directo nos rendimentos dos produtores. Chuvas abundantes causam inundações e a saturação dos solos com água. Ventos fortes, ciclones ou furacões causam danos mecânicos nas culturas, erosão dos solos e degradação da terra arável. O actual sistema de produção alimentar (caracterizado por agricultura intensiva, transporte de alimentos para longas distâncias, produção industrial de alimentos, bebidas e refeições, etc.) contribui para o aquecimento global. Para minimizar o impacto dos seus hábitos alimentares no clima considere as seguintes recomendações quando faz as suas escolhas:- Atente na origem dos alimentos que consome e, sempre que possível, prefira os alimentos produzidos localmente, cuja produção tem modo geral um menor impacto sobre o meio ambiente;- Consuma preferencialmente alimentos da época;- Pense nos quilómetros que o alimento que vai consumir fez para chegar ao seu prato. Considere não só, o local de produção do alimento, mas também o sítio onde este foi processado, armazenado e embalado;- Atente nos materiais utilizados para embalar os alimentos e sempre que for possível envie as embalagens para a reciclagem;- Procure variar o mais possível a sua alimentação. Deste modo, vai contribuir para a promoção da biodiversidade das espécies alimentares (tanto vegetais como animais).
MÉDICOS DE PORTUGAL

01 abril 2008

A Natureza que D. João VI viu no Brasil

Aspecto da Rua Principal do Rio de Janeiro em 1818 pintada por Thomas Ender

Que tipo de paisagem D. João VI e os portugueses que com ele vieram viram no Brasil? Que relações esta paisagem ainda guarda com a realidade brasileira após 200 anos? A vinda da Família Real portuguesa para o Brasil em 1808, foi um marco e um acontecimento sem precedentes na história brasileira, pois foi a primeira vez que uma monarquia europeia pisou em solo americano.

Após várias revoltas com vernizes liberais e republicanos acontecidas no país, no século XVIII, a chegada da corte reforçaria a ideia do papel do Estado monárquico conservador, mas, ao mesmo tempo, faria com que os velhos padrões económicos coloniais se vissem ameaçados pela abertura e liberalização dos portos, a qual favoreceria os grandes comerciantes cariocas em detrimento dos portugueses da Metrópole.

Como também é bem conhecido, a transferência da corte trouxe para a América portuguesa não só a Família Real, mas também o governo da Metrópole e, sobretudo, boa parte do aparato administrativo português. No total algo em torno de 20 mil pessoas transferiram-se de Portugal para o Rio de Janeiro e tiveram de se ajeitar em uma cidade precária, gerando com isto um caos urbano, situação que entrou para o folclore do país.

No entanto, apesar da imagem caricata com que é pintado muitas vezes no Brasil e que aparece em filmes como “Carlota Joaquina”, D. João era um monarca esclarecido e sua vinda alterou o status político do Brasil, além de criar uma nova base para seu desenvolvimento. Villalta (1997), mostra que a transferência da corte para o Rio trouxe não só a abertura económica e a demanda por instalações industriais inexistentes no Brasil mas também impulsionou a política de desenvolvimento de pesquisas científicas, incluindo jardins botânicos e a abertura de instituições de ensino, ainda que estas fossem marcadas, por um carácter pragmático e fragmentado (aulas régias) que não levaram a um progresso científico expressivo e não alteraram a dependência da Universidade de Coimbra, mas que fomentaram o início da ciência no Brasil.

Tão importante como este fato, a abertura do país abriu para os olhos dos naturalistas e pesquisadores europeus, a imensa e espantosa natureza tropical brasileira, que até então tinha sido mantida escondida a sete chaves pelos administradores portugueses.

De facto, tornar-se-iam frequentes, não só durante a presença de D. João, mas pelo período imperial adentro, as viagens e expedições elaboradas por cientistas dos mais variados países, que invariavelmente se mostrariam deslumbrados com as belezas da natureza tropical e se disporiam a toda sorte de desconfortos para conhecê-la.

O jovem e esforçado botânico francês Auguste de Saint-Hilaire passou 6 anos viajando pelo Brasil, a partir de 1816. De forma simples ele explica a curiosidade que a terra brasileira exercia sobre ele e sobre os cientistas da época: “O gosto pela história natural faz nascer o de viajar... Quando o rei D. João VI mudou para o Rio de Janeiro a sede do seu império, o Brasil abriu-se finalmente, para os estrangeiros. Essa terra, nova ainda, prometia aos naturalistas as mais ricas messes, foi ela que eu me dispus a percorrer”.

E é assim, pelos olhos destes naturalistas europeus que podemos vislumbrar a natureza que podia ser encontrada no período joalino no Brasil, uma natureza que ainda tinha muito de selvagem, como sugere a frase a seguir, de Spix e Martius, citada pelo historiador Warren Dean (1997): “É indiscutível o encanto desta região, onde frescos bosques alternam com extensas campinas cheias de claras fontes e de grupos majestosos de palmeiras, o qual é realçado pelo fato de não parecer profanado pela mão da civilização”.

Saint-Hilaire dá-nos uma indicação clara de como entender este ambiente: “Para conhecer toda a beleza das florestas tropicais, é necessário penetrar nesses retiros tão antigos como o mundo”. De facto, nas palavras deles veríamos que a imponência das florestas tropicais levaria à formação de um julgamento erróneo a respeito da antiguidade destas florestas, que levaria décadas para ser desfeito. Efectivamente as árvores eram velhas, porém as florestas tropicais eram jovens componentes da paisagem do ponto de vista geológico.

No fim do período colonial o grande assalto à natureza do Brasil ainda estava por acontecer na região sudeste do país, um assalto que alteraria radicalmente sua paisagem. Na época de D. João VI e por vários anos, porém, a paisagem ainda reservaria, muito da sua natureza primitiva, algo que provavelmente a corte portuguesa ainda viu no país.

Saint-Hilaire saindo do Rio de Janeiro em direcção a Minas Gerais, comenta o que vislumbrou: “Florestas virgens tão velhas como o mundo exibem sua imponência, quase às portas da cidade e formam um contraste encantador com o trabalho dos homens”. Ao mesmo tempo ele nos dá conta da agitação necessária para manter a cidade: “As estradas vizinhas da capital do Brasil são hoje em dia tão movimentadas como as que conduzem às grandes cidades da Europa”.

Por esta época, o açúcar, que havia sustentado a colónia, já estava sofrendo uma lenta queda na cotação do comércio externo em função da concorrência de Cuba e do açúcar de beterraba europeu e o café ainda não se havia tornado o pólo dinâmico do sistema agro-exportador brasileiro, algo que só aconteceria a partir de 1830, com auge na segunda metade do século XIX.

Passando os arredores mais imediatos do Rio de Janeiro, Saint-Hilaire corrige-se e constata que a própria vizinhança da cidade ainda tinha uma ocupação urbana modesta com áreas de natureza preservada: “Se próximo ao Rio de Janeiro podemo-nos julgar nos arredores de uma das maiores cidades da Europa, essa ilusão em breve se dissipa. À medida que nos afastamos.... vê-se cada vez menos habitações, as vendas rareiam, encontram-se menos terrenos cultivados, os bosques tornam-se mais comuns e como cada vez mais nos aproximamos das montanhas, o aspecto da região toma carácter mais grave”.

A paisagem, no entanto, era outra na antiga região aurífera das Minas Gerais, então em queda populacional após o auge da exploração mineral que ocorreu no fim do século XVIII. Após passar por Vila Rica, primeira capital desta província, Saint-Hilaire constata que “os morros que a rodeiam são cobertos por uma relva pardacenta e exibem a imagem da esterilidade”.

Ele dá-nos uma medida para avaliar as mudanças ocorridas: “Bastaram-nos duas horas de trajecto para chegar a Mariana..., os primeiros habitantes gastavam cinco dias, quando a região ainda era coberta de matas virgens.” Como outro visitante ilustre, o brasileiro José Bonifácio (que apresentei em outro artigo aqui na Ciência Hoje), já havia constatado, o desmatamento levava a uma decadência geral, devido à baixa fertilidade natural dos solos. Saint-Hilaire também percebeu isto, pois para ele “todo o sistema de agricultura brasileira é baseado na destruição de florestas e onde não há matas, não existe lavoura”. As próprias minas de ferro, riquíssimas na época, não podiam ser exploradas por falta de combustível.

No entanto, se o hábito da queimada era usual na população, ele também recebia incentivos oficiais do Estado. Saint-Hilaire explicou isto da seguinte forma: “Por um ignorância fácil de compreender quando se conhecem as relações do governo português com suas colónias, o próprio ministério, que se devia opor com todas as forças à destruição das matas, também contribui para acelerá-la... Por ocasião da chegada do soberano, o conde de Linhares fez promulgar um decreto que isentava de impostos, durante dez anos, os colonos que se fossem estabelecer no meio das matas”.

Saint-Hilaire cumpria assim o papel de crítico ambiental que os cientistas teriam a partir de então. Ele simplesmente notou que o ciclo agrícola queimada-plantio-abandono durava menos que dez anos, gerava destruição e nenhum imposto pago.

Mesmo com estes impactos evidentes em Minas Gerais, os visitantes ainda teriam oportunidade de conhecer belas paisagens no país. Em 1832, poucos anos após a independência do Brasil esteve no Rio de Janeiro, outro ilustre visitante, que teria oportunidade de conhecer um pouco de uma paisagem que ainda permanecia selvagem, o inglês Charles Darwin. Darwin pôde vislumbrar vistas deslumbrantes em pontos que hoje estão envoltos pela malha urbana desta cidade.

Em uma excursão à Pedra da Gávea, imponente montanha à beira mar, ele mostra-se estonteado com a paisagem, como podemos ver no texto retirado do seu diário de viagem: “Seguindo por uma picada, penetrei no interior de uma nobre floresta e, de uma altura de cento e cinquenta a duzentos metros, pude contemplar um dos soberbos panoramas tão comuns ao redor de todo o Rio. Vista desta altura, a paisagem atinge o máximo de brilho no seu colorido e todas as formas e sombras ultrapassam de modo tudo quanto um europeu possa jamais ter visto em sua terra natal, que não sabe como há de expressar as emoções do seu espírito”.

Após a metade do século XIX o plantio do café iniciaria uma dinâmica de ocupação de solos e desmatamentos que só cessaria em 1930 e devastaria boa parte da Floresta Atlântica brasileira. No entanto esta região da Gávea visitada por Darwin teve um curioso destino. Sua floresta foi queimada e transformou-se em plantação de café no decorrer do século XIX, mas acabou sendo desapropriada ainda durante o império frente à constatação de falta de água para a capital do país gerada por esta ocupação predatória.

Acabou sendo palco de um inédito projecto de recuperação ambiental que levou à formação de uma floresta secundária que, décadas depois, acabaria virando um parque nacional urbano. Assim, fato raro, podemos ainda vislumbrar nos caminhos que andam pela Pedra da Gávea, um pouco das imagens e sentir um pouco das sensações dos portugueses que desembarcaram no Brasil em 1808.

BIBLIOGRAFIA

VILLALTA, L.C. O que se fala e o que se lê: língua, instrução e leitura. In: História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. V.1. p. 331 - 386.

DEAN, W. A ferro e a fogo, a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

SAINT-HILAIRE, A. Viagem pelas Províncias de Rio de Janeiro e Minas Geraes. Tomo I. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938.

DARWIN, C. Viagem de um naturalista ao redor do mundo. São Paulo: Abril Cultural, s/d.

Por Edson Struminski * Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento (Brasil)

In Ciência Hoje