20 agosto 2005

PATRIMÓNIOS


Moinho Reconstruído
MANUTENÇÃO DO PATRIMÓNIO (imagem TL)
Os Convencidos da Vida

Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear. Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força. Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista. Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
(...) No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil. Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro. Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida - da sua, claro - para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal... sempre foi.
Alexandre O'Neill, in 'Uma Coisa em Forma de Assim'

Sorte, a deste moinho de vento. Alguém se lembrou que havia necessidade de preservar o único, que eu conheça, aqui na cidade. Sorte, porque para além de cuidarem dele, deixam-no em paz, ali está sózinho, sem ninguém que o aborreça. Não precisa "manobrar" para dar nas vistas, está bem colocado. Passam por ele, mas não reparam (não sei se será por distracção), por isso também não o criticam. Não se insinua, não comete atropelos, não inveja ninguém, humildemente aparece nas capas das revistas municipais. Poucos se lembram da excelência da sua obra, não precisou de irmãos-em-convencimento para a realização, e foram outros que o "levantaram", não porque tenha caído em efémera desgraça, mas simplesmente porque já não era necessário. Ali está, num local altivo, com Nossa Senhora da Atalaia a zelar por ele. Parabéns pela reconstrução.

O património cultural conserva-se, assim como o património que Alexandre O'Neill refere neste breve texto. Antagónicos, embora ambos culturais!


18 agosto 2005

CONTRASTES

SEM COMENTÁRIOS



(RE)INAUGURAÇÃON DO CINE-TEATRO JOAQUIM DE ALMEIDA

APRESENTAÇÃO - 14 DE AGOSTO DE 2005
Assistimos a uma (re)inauguração bem à portuguesa, com 40m de atraso. Paciência, temos mesmo que nos habituar, não há nada a fazer. Faz parte do nosso património "também". Assistimos a uma explicação visual do que tem sido feito na cidade e sejamos justos, com excepção do café da Praça, tudo o resto foi bem feito. O moinho da rotunda, o moinho de maré, o cais do Seixalinho, os barcos da Transtejo, a circular, a ciclovia...enfim tudo a condizer com a inauguração.
Ouvimos as entidades oficiais, um pouco da história do cinema, incompleta a meu ver e estranho, quase não foi abordada a existência de um grupo escultórico que se encontra no exterior, da autoria de José Farinha e Martins Correia, segundo consta de valor incalculável. Não digo a verdade se não mencionar que no palco estavam representadas, ao vivo as ditas esculturas, mas creio que não lhes foi dada a importância necessária, nem explicado o seu valor.
A sala tem um óptimo aspecto, alegre, ampla, com luz e acústica excepcionais. Tenho que manifestar a pobreza dos espaços no que se refere a ornamentação. Creio que serão espaços a melhorar e tudo se deveu à necessidade de inaugurar o espaço no dia da cidade (20 anos).
Vamos ter cinema, teatro, ópera, conferências e está previsto, para permitir a sustentabilidade do espaço, a integração de um pólo audiovisual e multimédia, uma dependência da Biblioteca do Montijo e uma ciberteca a funcionar na cafetaria do piso 0.
Rodrigo Leão ofereceu-nos um espectáculo inesquecível e o público apreciou, portanto quando há qualidade o público responde positivamente.
Dados técnicos:
Área bruta: 3779m2
Área total da sala principal: 3298m2
3 Foyers polivalentes (entrada/plateia, salão nobre, pólo multimédia da BPMM)
Cafetaria
Espaço exterior: A Nossa Árvore
2 camarins colectivos e 1 individual
Espaço administrativo
Sala Polivalente
Sala Principal
Capacidade: plateia - 288 lugares (6 lugares para pessoas portadoras de deficiência motora); balcão: 355 lugares
2 Gabinetes de tradução simultânea
Acho que estamos de parabéns, aguardamos agora a programação e esperamos que haja alguns ciclos de cinema dedicado a autores e a actores. Que voltem as DIVAS para delírio da Madalena.
Dados retirados do folheto técnico entregue no dia.

PATRIMÓNIO CULTURAL

CINE-TEATRO JOAQUIM DE ALMEIDA

O Cine-Teatro Joaquim de Almeida foi construído entre 1953 e 1956, segundo o projecto do arquitecto Sérgio Gomes. A construção deste empreendimento resultou da iniciativa de Izidoro Sampaio de Oliveira, José Sampaio de Oliveira, Gabriel da Fonseca Mimoso e Luís Salgado de Oliveira. Foi inaugurado em 20 de Outubro de 1957, apresentando ao público a peça O Prémio Nobel, a cargo de Companhia Rey Colaço, Robles Monteiro, a 6 de Novembro desse mesmo ano.

Durante muitos anos foi a alternativa a uma ida ao teatro a Lisboa, o que se tornava difícil devido às dificuldades de transporte. Quem tinha automóvel podia ir até Cacilhilhas e atravessava o rio nos velhos barcos. Quem não tinha aproveitava os fins de semana para poder ir e voltar nos barcos que faziam a travessia Montijo-Lisboa-Montijo em horários pouco articuláveis com as horas dos espectáculos.

Lembro-me dos velhos rituais de domingo, ir à missa de manhã (o melhor era a hora da saída), o encontro com os amigos e uma escapadela à velha pastelaria Mimosa para combinar a tarde. Seguia-se o almoço e a espera para a sessão da tarde no Cine-Teatro. À saída era inevitável a nostalgia do fim de semana, do domingo ao fim da tarde, do voltar à rotina das aulas da inevitável 2ª feira. Eram iguais os fins de semana, o filme é que mudava. Por vezes conseguíamos uma ida ao cinema à 5ª feira, quando era exibido um filme de "qualidade". éramos um grupo de amigos de infância e tive a agradável surpresa de reencontrar o Gabriel Mimoso, último proprietário do "cinema" e que fazia parte desse grupo.

Assisti no dia 14 deste mês à (re)inauguração do mesmo cine-teatro Joaquim de Almeida, depois de um interregno de 34 anos. Em 1999 a Câmara Municipal do Montijo adquiriu o edifício e após algumas obras de remodelação reabre ao público.

Revivi nessa noite muitos dos momentos da minha juventude. Foi bom.



16 agosto 2005

Lazer e Cultura

Vilamoura e Quarteira
Vilamoura, outrora lugar de elite para passar umas férias tranquilas, transformou-se num local onde desembocam multidões de todos os estratos sociais e onde a mtultinacionalidade deu lugar a uma nova urbe composta de "nortenhos" (do Porto, carago) e espanhóis (que le gusta mucho los diminutos euros que gastan???).
Novos hotéis, de luxo, preços também de luxo para nós tristes portugueses. Pelo menos as praias têm melhorado.
Ao lado, Quarteira, a antiga praia inspiradora de Cliff Richard, tão maltratada durante anos, parece agora uma nova estancia onde é possível aceder a uma praia excepcional, observar um pôr do sol lindo e fazer um passeio cultural depois de jantar, onde o artesanato se alia aos livros, com sesões de autógrafos de autores e pequenas palestras.
Tenhamos esperança, pode ser que vá subindo e do Algarve chegue à península de Setúbal a simbiose lazer e cultura.