A MEMÓRIA E A COMPREENSÃO

É difícil discutir Educação em Portugal. O debate é muito emotivo, pois há muito que está em jogo. E facilmente se torna simplista. Quem defenda a existência de alguma memorização no ensino corre o risco de ser identificado como conservador ou acusado de defender um ensino acrítico e repetitivo. E quem defenda actividades de divulgação e sensibilização para a actividade científica pode ser julgado como partidário de um ensino meramente lúdico. A agravar o panorama, nem sempre as breves declarações feitas à comunicação social pelos diversos actores aparecem de forma que transmita a complexidade e diversidade dos problemas.
Assim é, em particular, com o papel atribuído à memorização e à compreensão, ao treino e à avaliação, à experiência do dia-a-dia e à cultura.
Surpreendentemente, em muitas das nossas escolas decora-se de menos e decora-se demais. A memória, que para algumas correntes pedagógicas românticas aparece só depois do raciocínio, surge para essas correntes desligada das outras capacidades cognitivas, quando deveria ser integrada nelas. Na realidade, há momentos em que a memória de certos factos ou o treino de certas rotinas pode preceder a sua compreensão, nomeadamente na aritmética e na leitura. A criança pode ser envolvida em actividades ou jogos mentais, com ou sem prazer imediato, que a ajudem na futura compreensão. Pode-se cantarolar 'b-a-ba' sem perceber a distinção entre vogais e consoantes e o processo de formação dos fonemas, tal como se pode resolver implicitamente equações lineares antes de perceber o que são variáveis e equações. Há actividades que podem preceder a compreensão completa dos conceitos que envolvem, enquanto a compreensão reforça a capacidade de efectuar essas actividades.
As correntes românticas que têm dominado as teorias pedagógicas em Portugal não o percebem e dizem que não se deve apelar à memorização e ao treino antes de os alunos perceberem os motivos e os fundamentos das técnicas. Igualmente segundo essas correntes, nada se deve transmitir aos alunos sem que seja justificada a sua utilidade. É este o pensamento que está por detrás do aparecimento do Big Brother em manuais de português e do afastamento de Gil Vicente e de Bocage dos programas. A confusão é tremenda. A utilidade e compreensão imediatas não podem ser critérios limitativos das matérias e do ensino.
Quando as coisas se confundem e o ensino se degrada, todos desenvolvem estratégias de adaptação. Os editores de manuais e os professores adaptam-se. Os autores medíocres proliferam e os professores procuram que os alunos sobrevivam. Estes últimos, em particular, criam estratégias de adaptação que os levem a ultrapassar os marcos escolares e sobreviver às avaliações. Decoram técnicas e regras, não para dominar as matérias, mas para ultrapassar os mínimos dos mínimos.
Quando a pedagogia romântica e antagonista da memorização predomina, os alunos respondem da maneira mais natural: memorizam cegamente algumas regras que lhes permitem sobreviver.
NUNO CRATO Professor do ISEG, membro da direcção da Sociedade Portuguesa de MAtemática
in Diário de Notícias


2 Comments:
O debate sobre educação aqui no Brasil também é muito emotivo e geralmente se torna simplista. Detesto a memorização no ensino de matemática. Falei disso recentemente em:
http://profcorelio.blogspot.com/2006/06/nem-tudo-futebol-nessas-terras.html
Um abraço
Marco Aurélio
A memorização não é uma coisa que se deteste ou se ame, é um exercício que convém praticar. A parte do cérebro que se ocupa da memorização se não for exercitada, paralisa, adormece. Claro que a matemática não pode ser tratada com base na memória, a compreensão é fundamental, mas não pode estar isolada, tem que ser complementada.
Obrigada pelo contributo. Um abraço.
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