Património de Infância
Acabaram as férias e esperamos a entrada de um novo ano lectivo e de uma nova estação. Época nostálgica por excelência, não só porque se acaba o "dolce fare niente", mas também porque a continuação de uma estação seca antecipa a queda das folhas, o desaparacimento dos escassos espaços verdes. É uma época propícia à meditação. A lembrança da infância faz parte do património pessoal e a fotografia desta casa traz-me à lembrança os meus anos de criança. Por uma ninharia alugavamos esta casa durante os meses de Julho, Agosto e Setembro e vivíamos saudavelmente os meses de férias. Claro que nessa altura havia uma mãe que se ocupava de nós, os filhos, os primos, os amigos, sim porque a "nossa" casa estava sempre cheia de miudagem. Foi um espécie de património desaparecido do qual ainda consegui obter a fotografia da casa que nos albergava (antes que um majestoso prédio seja construído a bem do turismo). Havia sempre quem se sacrificasse para que nós (os sortudos) pudessemos ali ficar. O meu pai lá tinha que fazer um longo trajecto para fora de Sesimbra para desempenhar as suas funções.
Apesar dos três meses de reais férias conseguimos obter o nosso "canudo", não ficamos traumatizados, os nossos pais ficaram sempre com a consciência do dever cumprido e criámos oportunidades para que outros aproveitassem a "nossa" casa.
Todo este património desapareceu, os pais, os amigos de infância, os primos e os que restam não têm TEMPO para conviver. Será que o conhecimento nos obriga a perder este património precioso? Só o conhecimento? A tecnologia devia DAR-NOS mais tempo, mas não vejo isso, ou será que até os meus olhos me enganam? Sinceramente ando um pouco baralhada com os novos tempos!!!!
Todos correm, todos gritam, todos contestam, tomam as refeições com um pé na rua e outro em casa, dormem em frente à televisão, encarnam os papéis desempenhados nas telenovelas, assistem petrificados ou insensíveis às notícias (todos os dias catrastóficas), não falam, não lêem (só o jornal), não convivem, entram já a a correr para tomar uma bica. Emfim, creio que estamos perante um novo património. Espero que não seja para preservar.
A CRONOLOGIA DO TEMPO SERÁ A RESPONSÁVEL POR TUDO ISTO?
Terei que aprender a pensar e a viver como sugere Faíza Hayat na citação que transcrevo.
A urgência é-nos comum, o tempo atrás ou o tempo em frente é irrelevante, absurdamente irrelevante. Ambos são uma ficção: tanto o que recordamos como o que esperamos. Apenas existe na nossa imaginação.
Autor: Hayat , Faíza Tema: Tempo



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